Uma nação se faz pelo culto à sua memória e pela recuperação de sua história. Seus momentos mais sublimes são exemplos a serem seguidos, e seus momentos mais sórdidos são exemplos do que não deve jamais ser repetido.
Assim, novas gerações vão formando
-se
pela educação, pelo aprendizado
através do trabalho
de seus antepassados, e do esforço dos que antecederam.
Desta maneira, a liberdade pode ser vivida, animada e tomada como um princípio ao qual em nenhuma hipótese se deva renunciar.
A renúncia significa escravidão. Isso implica fidelidade aos fatos, ausência de dogmatismos e, sobretudo, atitudes que não falsifiquem o que aconteceu no passado, pois esse tipo de deformação e deturpação histórica tem a função de esconder posições contrárias à liberdade, abrindo caminho para novos dogmatismos, autoritarismos ou mesmo totalitarismos.
Uma atitude "totalitária" que adote uma roupagem “democrática” contribui para que a própria democracia seja minada do seu interior, tornando relativos valores e exemplos.
Há pessoas e agrupamentos políticos que, hoje, se reivindicam da “resistência à ditadura militar”, quando, na verdade, lutavam pela “ditadura do proletariado”, procurando impor, pelas armas, o totalitarismo comunista no Brasil.
Se a palavra resistência a eles se aplica, deveria significar resistência aos que resistiram ao seu projeto totalitário.
Em vez de fazerem sinceramente o luto de suas posições, reconhecerem os seus erros e, neste sentido, contribuírem para a história do Brasil, pretendem se colocar como verdadeiros representantes da liberdade.
Democraticidas se travestem de libertários. O paradoxal, no entanto, é que têm conseguido fazer passar essa falsa mensagem à opinião pública, inclusive com proveitos próprios, pecuniários, nada desprezíveis, como são as polpudas indenizações por supostos atos de “resistência”.
Além da falsificação histórica, são beneficiários de uma nova forma de “reparação histórica”: a “bolsa-ditadura”.
Na verdade, o contribuinte brasileiro, você, eu, todos nós estamos pagando por uma das maiores empulhações da história brasileira. Os “revolucionários” perderam toda a moralidade, inclusive a moralidade da causa que diziam defender, e alguns ainda dizem representar.
Em vez de afirmarem – o que é o seu próprio direito – a validade moral da causa defendida, procuram extrair proveitos do Estado brasileiro, o que significa dinheiro dos cidadãos, dos mais pobres aos mais ricos.
Derrotados política e militarmente, procuram uma “reparação” de algo que foi produto de sua livre escolha. Se escolheram a causa do “socialismo”, do “comunismo” e da “ditadura do proletariado” são – ou deveriam ser – responsáveis por seus atos.
Não deveriam transferir essa responsabilidade aos demais e, além disso, exigir que outros paguem por suas escolhas.
Em vez da responsabilidade moral, o seu pleito se reduz à “bolsa-ditadura”.
Imaginem se Lenin e Trotsky, tendo fracassado em sua tentativa de derrubar o regime czarista, viessem a pleitear, anos depois, uma “bolsa-ditadura”, resultante do seu insucesso.
As autoridades governamentais russas deveriam pagar por não terem sido derrubadas e assassinadas!
Pode-se estar ou não de acordo com esses antigos revolucionários, pode-se ou não estar de acordo com as suas posições, em todo caso não se pode dizer que não fossem coerentes com seus projetos, tendo, no caso de Trotsky, dado a vida por sua causa.
Morreu no México, com uma picareta cravada em sua cabeça, num golpe desferido por um agente de Stalin, que depois terminou sua vida num suave repouso na Cuba Castrista.
Tinham dignidade moral, o que não se vê nos revolucionários nacionalistas brasileiros da “bolsa-ditadura”.
Memória significa abertura às atuais gerações de todos os documentos e arquivos desse período. Devem elas aprender com o acontecido, conhecer os personagens envolvidos, num confronto com os fatos, e não com tergiversações históricas.
Antes e durante o período em que a tortura foi aplicada, outros atos igualmente abjetos foram cometidos, como seqüestros, assassinatos a sangue-frio, assaltos, bombas e mutilações feitos por grupos e pessoas que hoje, em nome desses seus atos (heróicos???), usufruem a “bolsa-ditadura”.
Torturadores, assassinos e assaltantes devem aparecer e emergir dos arquivos que não foram ainda tornados públicos.
Há mais de meio século começou o regime militar. Nada justifica que os cidadãos brasileiros não tenham amplo acesso a esse período de sua história.
Todos devem conhecer em nome "do que" lutavam os diferentes contendores, devem aprender os diferentes significados da palavra resistência, devem fortalecer suas convicções de que, fora da liberdade e da democracia, não há sociedade que dignifique o homem.
Este retalho de texto de Denis Lerrer Rosenfield, professor de Filosofia na UFRGS e publicado no Estadão nos leva a pensar sobre realmente quem era quem, na luta pelo poder entre militares e revolucionários brasileiros.
Sim, porque ambos os lados desejavam impor suas convicções e idéias totalitárias pela força, daí surge a pergunta: Onde ficava a democracia?
Hoje em dia temos de conviver com discursos, palanques e partidos políticos inchados de "herois" da luta contra a ditadura, em prol da democracia.
Que democracia seria esta? Um modelo castro-cubano, marxista-leninista, ou sovieti-comunista-trabalhista?
Enfim, no meio desta salada creio que inventaram a democracia-totalitarista-fundamentalista-partidária-popular e por ela lutam com unhas e dentes.
Fonte: Jornal Estado de São Paulo
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