domingo, 16 de agosto de 2015

Brasil - Retalhos do dia a dia - 2

Brasil - Retalhos do dia a dia - 2
Coletânea de observações do nosso cotidiano político.

            O transatlântico Brasil segue lentamente em alto mar. Tem problemas crônicos na casa de máquinas. A capitã e sua tripulação tomam as providências: Reúnem-se para discutir a faxina no convés e a arrumação dos móveis no salão de jogos. A esquizofrenia do transatlântico chegou a um ponto quase folclórico. Nem se pode mais dizer que os problemas cruciais do país permanecem intocados por causa do conflito de interesses. Não é mais o falso debate sobre privatizações,ou tirar esta ou aquela classe do nível A para B, em que um lado fica querendo parecer mais brasileiro do que o outro empunhando falsos dogmas de patriotismo. Agora é pior, já que oposição e situação não mais se diferenciam, a paralisia está no consenso.

        Por debaixo dos panos, governo e oposição estão caminhando para a costura de um acordo que acaba com o tema impeachment. Um movimento gigantesco, uma mobilização descomunal de energia e tempo para mudar a mudança, para jogar fora a arte final e consagrar o rascunho – que depois de amanhã alguém provavelmente descobrirá que não serve (tanto que já não servia) e partirá para rasurar a rasura.

       Não importa discutir se é o ideal ou não que os presidentes, governadores e prefeitos possam criar acordos e regras em seus mandatos. O que importa é que o Brasil não é confiável para criar regras, porque não se acostuma a respeitá-las. Talvez o impeachment, como sonha utopicamente a imensa massa de brasileiros descontentes, seja mais problema que solução. Ou talvez seja o contrário. Quem pode afirmar categoricamente? A única certeza inquestionável é que, se o Brasil tem problemas na casa de máquinas, esse definitivamente não é o tema que vai destravá-lo, que mereça a prioridade um acordo nacional em torno do: "O que fazer se...".

       É impressionante que um governo, um congresso, enfim, as instituições políticas de um país com tudo por fazer estejam mobilizadas para rasurar mais uma vez uma regra que, na perspectiva do tempo histórico, acaba de ser mexida, e que tem muito pouco a ver com o bom funcionamento da casa de máquinas, do país real.
      O impeachment pode ser bom, porque a continuidade da atual administração é um prenúncio de dias negros. Se há imperfeições na forma como tem sido processado, que se busque as correções de rumo. É preciso livrar-se de uma vez por todas dessa síndrome adolescente de que avançar é criar regras novas a cada nascer do sol.

Comentários: AnalfaBlog



sábado, 15 de agosto de 2015

Brasil - Retalhos do dia a dia.

Retalhos do dia a dia.
Coletânea de observações obtidas a partir do nosso cotidiano.

      Causou-me espanto ler num jornal da capital gaúcha uma observação sobre as ferramentas utilizadas pelos deputados e senadores brasileiros em seu estafante "trabalho":  
-1º) Tablet pessoal. A grande maioria revela sem o menor pudor, não saber usar e nem ter interesse em aprender. 
-2º) Notebook. O senador entrevistado revela que tem vários "rolando" pelos gabinetes e que as vezes tem dificuldade de localizar o seu. 
-3º) Telefones celulares. A média dos parlamentares possuem três, para (dizem) melhor exercer o seu ofício, e em média são 60 a 120 por gabinete. Isso tudo generosamente pago pelo contribuinte, ou seja você, eu, o taxista, o padeiro etc... sem contar que  devido ao "acúmulo" de trabalho nos quase 3 dias passados no congresso, sempre pode sair uma soneca afinal ninguém é de ferro.
          Agora vejamos as ferramentas utilizadas pela maioria dos professores públicos brasileiros: - Giz e Quadro-negro, quase sempre em péssimas condições assim como as escolas em que ensinam. E nas campanhas políticas pregam em alta voz ser a educação a prioridade para o desenvolvimento do país.
           Em outra parte do Brasil, jornal local estampa na coluna policial matéria em que a irmã de uma vítima de assalto, ligou para a polícia relatando o fato recém ocorrido, e teve como resposta de uma atendente que não era possível fazer nenhum atendimento ou mesmo ir ao local por estarem sem viaturas. Como? O que? Em uma cidade de quase 400.000 habitantes não ter viatura? Como um país, dito "emergente", saindo do terceiro mundo, que não tem dinheiro sequer para comprar viaturas policiais, sediou uma copa do mundo? Fica aí a pergunta!
         Apenas por curiosidade, fico pensando se nossos líderes tanto no legislativo, executivo ou judiciário não estão exagerando nas sucessivas propostas de aumentos exponenciais de seus já vultosos salários, incrivelmente maiores do que a receita da grande massa, que no final das contas é quem realmente trabalha e produz nesse país, para que eles brinquem de autoridades e recebam os louros do poder. 
         Gostaria de ver um, apenas um, dos nossos mandatários seguir o exemplo de Deng Xiao Ping, que se destituiu de todo salário, e de todas as regalias e honrarias ao assumir uma China caótica e atrasada e graças ao seu governo é hoje a potência comercial e financeira mais respeitada no mundo. Gostaria, mas como não posso esperar sentado vou juntar-me a vocês, que diferentemente deles temos que trabalhar.

Texto: AnalfaBlog
Comentários: AnalfaBlog


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Brasil - A semelhança não é mera coincidência.

   
                    Vejamos: Quem advinha o nome desse pais?
                 Um país politicamente tenso. Parlamentares divididos entre o apoio incondicional e a revolta latente contra um governo que muitos consideram populista, corrupto, espúrio e incapaz de manter as conquistas recentes da nação. 
             Um governante que perde a popularidade entre os mais pobres, enquanto é sustentado pelos mais ricos que dele dependem. Uma população volúvel, cuja opinião flutua ao sabor do discurso do orador mais sedutor. 
            Uma liderança despótica, desgastada e isolada no segundo ano de governo, contra quem mesmo antigos apoiadores incondicionais já conspiram nos bastidores. Um personagem que ouve apenas bajuladores, não tolera má notícia nem contestação, mas ainda resiste, em nome da república, a ceder à última tentação autoritária. Evidente de que país se trata, certo?
            Se respondeu Brasil, errou... Trata-se de Roma, março de 44 a.C., últimos dias do governo de Júlio César, de Willian Shakespeare.
           Shakespeare escreveu a peça entre 1598 e 1599 com base em suas leituras dos historiadores romanos Plutarco e Suetônio, e impressiona-nos com por revelar a alma humana na sua busca trágica pelo poder a qualquer custo. 
          A tragédia começa com aquele ingrediente indispensável à política: Conspiração, tendo como personagens Marco Antônio, Octávio, Cássio e Brutus, e culmina, como todos sabemos com a morte de César.
          Mas o que a torna uma peça política, como o foram as centúrias de Nostradamus, e profeticamente atual, é o momento em que Cássio diante do cadáver de César pronuncia alguns dos versos de Shakespeare: /Quantas épocas por vir/Será esta nossa cena de novo encenada/em estados ainda não nascidos e sotaques desconhecidos?/.
           Pouco (se é que algo) mudou na política desde então. O sucesso de quem ambicionou o poder e hoje o detém, leva a pretensão divina, ao totalitarismo e finalmente à tragédia.
          Isso nos faz voltar ao início do artigo, e, se agora ao relermos o texto substituirmos Roma por um país tupiniquim de codinome Brasil, atualizaremos Shakespeare para o século 21 sem prejuízo de conteúdo.