quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O Brasil que eu tanto quero.

           

          É manhã de quase primavera e realmente parece que o dia promete ser lindo, um ímpar presente da natureza para quem decide ir caminhando para o trabalho.
           Andava em direção ao centro da cidade, conjecturando sobre as últimas noticias do pedaço de mundo chamado Brasil.  Quais as regras que irão reger as próximas campanhas políticas?  Irá sustentar a fidelidade partidária?  E o foro privilegiado para autoridades políticas? O presidente cai ou não?   
       De repente ao virar em uma esquina deparei-me com uma triste cena: duas crianças pequenas, dormiam sobre jornais debaixo da marquise de um magazine, cobertas com papelões e trapos como único abrigo contra a noite anterior, que se bem me lembro, chovia muito quando fui deitar por volta das 11:00 da noite.
       Pasmo e triste com a cena sigo na caminhada pela manhã agora já não tão linda. 
      Retomo meus pensamentos para a atual situação política do país e recordo as recentes maracutaias e negociatas nos escabrosos corredores do planalto!
     Passo através da praça central e ao sair do outro lado, vejo um casal, com uma criança de colo, buscando em uma lixeira pública o que seria a primeira refeição do dia. 
        Descortinou-se então uma visão do cotidiano em sua face mais cruel.
       O dia continuava lindo, mas as nuvens da miséria patrocinada pela corrupção insistiam em pinta-lo de cinza e cobriam tudo com a névoa rubra que só o desencanto é capaz de produzir.
    CPIs, promessas de campanhas, desvio de verbas para enriquecimento pessoal, mensalão e mensaleiros, petrolão e seus canalhas, líderes que bradavam ética e honestidade e ora desnudos mostravam-se sujos como breu,  outros quando em campanha tudo criticavam agora após eleitos nada sabem e nada veem, filas intermináveis em pronto-socorros e muitas outras sandices começaram a perturbar meus pensamentos e poluir a visão do dia que se iniciava, cobrindo de horror minha mente.
       Senti-me réu em assumida culpa por omissão!
       Como pude ver isso todos os dias e ainda assim não ver?  O que houve com meu senso de justiça?  O que me tornei?  Onde em minha caminhada pela vida adentrei nesse caminho?  Quando me tornei conivente e cúmplice dessas barbáries?
       Na verdade eu sempre soube as respostas, apenas me recusava firmemente a assumir minha parte na culpa.
        Eu sabia por exemplo, que quando permiti que a propaganda eleitoral (na verdade eleitoreira) entrasse em minha casa, com seus chavões e imagens criadas com todo zelo por marqueteiros profissionais, e me seduzisse com suas promessas e ilusões, tornei-me cúmplice das safadezas que estariam por vir.
       Bastaria apenas desligar a TV no horário eleitoral,  e procurar por mim mesmo aquele a quem meu voto iria ajudar a eleger-se.
      Não, claro que não,  é muito mais fácil e cômodo fazer a escolha pelo que nos mostram como "verdade" sobre as intenções dos políticos.
      E então, com nossa total permissão, na tela, finalmente descortina-se diante de nossos olhos a solução de todas as mazelas.       
      Tchan-tchan... Ele, "o candidato".
      Impecável, bem falante, quase sempre cercado de crianças sorridentes e felizes,  e uma cuidadosa partitura musical de fundo a emoldura-lo em seu melhor sorriso.
      Então, pra finalizar o tempo disponível no horário eleitoral com chave de ouro: "O jingle da campanha"!
      Sou apenas mais um brasileiro descontente com a nossa política, mas o olhar daquela criança comendo lixo com seus pais vou reter com cuidado na memória, e será esse olhar que levarei para a cabine de votação nas próximas eleições.
       Vou, a partir de agora,  fazer toda a força possível para jamais esquecer, que todos nós comemos  os  "frutos" de nossas escolhas!

Texto: AnalfaBlog
Comentários: AnalfaBlog
Revisão: Sandra Fernandes

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